O Especialista na Arte de Amar



Sofrimento: Você Cospe ou Engole?

Dá licença, posso sofrer sem que me encham o saco ou me chamem de menininha ou de ser humano frágil? Se me tirarem esse direito, viro só mais uma carcaça que trabalha, come, dorme e trepa. Eu não sei como é ser proibida de votar, usar calças compridas, trabalhar e escolher marido. Eu não faço ideia. Eu já nasci diva de cinema, camisinha na bolsa, motorista de carro e divorciada. Já sou presidenta, mas não disse que pagaria com felicidade. Ainda sinto pontadas melancólicas, que me obrigam a chorar de saciar baldes: o único jeito de contar pra mim quando estou triste, apesar do mundo que conquistei.

Engole o choro, Priscila. Me lembro mais dessa frase, do que dos Natais da minha infância. Meu pai sempre mandava essa, quando percebia uma faísca de berreiro. Eu me esforçava para não desapontar o meu herói, mas nunca tive talento pra algemar tristeza.

Chorei no primeiro dia de aula do primário. Não queria ser adulta. Se eu pudesse continuava desenhando bolinhas e brincando de pega-pega. Chorei no banheiro do trabalho, por causa de uma chefe sacana. Chorei no trânsito e um vendedor de rosas no farol me perguntou o que aconteceu. O meu avô tinha morrido e eu enfrentava duas horas de congestionamento. Ignorei caminhoneiros e motoboys ao redor, o meu público. Chegando em casa, não abracei ninguém, fui pro quarto umedecer a cara. A minha família nem imagina que, longe deles, eu sou de açúcar.

Choro pelos caras. Eu coloco músicas pra me lembrar deles e mando ver. Na saída de um show, tive um ataque por causa de um. Um de quem gostei com aquela brutalidade, que não consigo evitar. Uma menina na fila quis me assessorar, Não chora pelo amor de Deus, ela dizia, como se zelasse pela minha dignidade. Que dignidade? Eu já tinha esfaqueado a minha dignidade, desde que me permiti gostar de alguém, que só esfregou a sola do sapato na minha cabeça. Perto de uma dignidade desertora, o que eram umas lagriminhas, detonadas pela cerveja na saída daquele show? Vai ser digna no inferno! Doía, porra. Essas lágrimas que te envergonharam, essas aí, que você tentou barrar, garota, é o meu jeito de expor um ponto de vista. Me violentei toda vez que fiz silêncio. Eu sou de me derramar inteira numa folha em branco. De ter pranto contando pra desconhecidos como me sinto. Sofrer é pra quem tem força. Fica tranquila, porque eu aguento o dia seguinte, quando tudo é ressaca de uma surra emocional. Eu aguento. Eu espero sempre aguentar.

Reprimir meu choro é tão agressivo que acabo no hospital. É travar boca. É calar teclas. Não suporto gente contida. Não entendo. Cheira a aguado. Gente que ri sem arreganhar os dentes. Personagens vazias, poluídas de bons modos. O que passa pela cabeça de vocês quando a luz se apaga e a vida é mais franca? Vocês enchem a cara de álcool para amortecer o coração mastigado? Como vocês esparramam suas lasquinhas de dor secreta?

Eu não quero ajuda. Eu gosto do meu exagero. Gosto de quando o sofrimento aterrissa, pra eu esvaziá-lo até a última linha. Descrevê-lo em gotas salgadas – antes que passe. O sofrimento é turista. Gosto de encadernar suas fotografias, porque me vestem de espertezas futuras. Eu nunca chorei pelo mesmo Adeus. Se eu reprimo, a dor transborda por poros desajustados e me convence de que faço escarcéu, em vez de desabafos. De que transformo vírgulas em parágrafos. Me dá licença. Vou sofrer sempre que puder. Eu não vou engolir o choro, vou cuspir pelos olhos.


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